quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Aluga-se

É só o primeiro apartamento do dia e, de repente, o futuro cabe em 48m². O corretor insiste em dizer que aquela é uma oportunidade única enquanto minha mente, como em um big bang de ideias, ocupa os espaços vazios com os fantasmas que um dia hão de se materializar.
A poeira sobre a pia da cozinha cede lugar à pilha de pratos sujos do almoço, que serão lavados quando acabarmos de comer o brownie com sorvete de macadâmia que aprenderei a fazer. Aproveito para pegar uma cerveja na geladeira. Os amigos de tantos anos estão ali na sala. Em pufes ou num sofá? Ainda não sei. A conversa está animada. Alguém passou num concurso para promotor de justiça. Um bebê está a caminho. Há um anel de noivado. Uma viagem ao Japão. Alguém tem notícias da Maitê? Quem sabe até lá não terminei de escrever minha dissertação. Que dia feliz!
"Esse é o banheiro social." Continua o guia daquele breve passeio ao futuro. Os insetos mortos num canto não anulam o cheiro de sabonete de alfazema que enche o ar. Seguimos para a suíte. Que janela enorme! Apesar do sol primaveril, a vejo embaçada com as gotas frias de um dia que amanheceu nublado e decidiu seguir chorando junto a mim por algum motivo que não consigo distinguir. Talvez seja só um livro triste daquela prateleira cuidadosamente organizada logo acima da mesa.
E que mesa! Própria para desenhar. Algumas ilustrações estão emolduradas e penduradas na parede ao lado da cama. E esse retrato? Que casal é esse? A moça com pintas no rosto sou eu. Mas quem é o rapaz? Talvez seja ele chamando no interfone enquanto o corretor indica o caminho para voltarmos à sala.
Algum zunido sobre o valor do condomínio e da internet atravessam minha cabeça que agora gira num crescendo progressivo à la Bolero de Ravel. Os braços cheios de compras atravessando a porta, um gato arranhando o sofá (ou será um pufe?), canções no chuveiro, mãos dadas no escuro, um filme enquanto passo as roupas, o mestrado, as olimpíadas de 2016. Um varal cheio de fotos de viagens. Itália, França, Islândia, Antártida. Talvez uma árvore de natal permanente para realizar um sonho de infância. Febre, tédio, amor, insônia. É só o primeiro apartamento do dia.

Um comentário:

Bruna Caixeta disse...

Cintia, que maravilha de texto! Ele porta as mais nobres qualidades de um bom texto literário: tem traquejo arguto das palavras, sabe expressar em sua própria construção frasal os temas do enredo, tais como, insegurança, as incertezas de um futuro; é dotado de conteúdo humano; instiga, põe o leitor a viver o dito. Uma delícia de ler!
Gostei muito e espero que venham muitos!
Abraços,
Bruna